Por Mauricio Rands*

Prevalecesse a vontade do eleitor, ele implodiria o sistema eleitoral e partidário. Daria um não rotundo às oligarquias partidárias e aos bilhões de dinheiro público jogados nas mãos desses burocratas-oligarcas. Em 2018, muitos pensaram que Bolsonaro seria o instrumento dessa tão ansiada implosão. Hoje, muitos desses que se iludiram já o abandonaram. Por perceberem que a sua atitude diante da pandemia deixou de poupar dezenas de milhares de vidas. Por vê-lo abraçado ao PP de Ciro Nogueira, ou ao PL de Valdemar Costa Neto, ou ao PTB de Roberto Jefferson, esses representantes da velha política que iria ser implodida por Bolsonaro. Por constatarem que o desemprego, a inflação, os juros altos e a irresponsabilidade fiscal agravaram as condições de vida do povo. Por saberem que a volta da fome e o agravamento da miséria reclamam uma melhor condução da política econômica. E por constarem que o aumento do desmatamento da Amazônia acabou de queimar o filme do Brasil na cena internacional.

?Em 2021, o governo federal gastou R$ 35 bilhões com o Auxílio-Brasil. Em 2022, serão R$ 65 bilhões. Isso não decide a eleição, mas dá uma vantagem a Bolsonaro sobre as outras candidaturas que tentam disputar com a de Lula. Além disso, Bolsonaro consegue muita eficácia em sua guerrilha digital. Mantém milhões em uma realidade paralela. Bombardeada por postagens que lhe agradam, essa sua base-raiz segue acreditando em suas bandeiras. Muitos porque estavam no armário e dele saíram na onda das mensagens bolsonaristas de ódio. Viram legitimados os preconceitos que sempre nutriram. Preconceitos contra mulheres, negros, gays, ambientalistas, intelectuais, mídia e movimentos sociais. Esses compõem o núcleo-raiz que acredita ser Bolsonaro um avatar contra a maldade. O que lhe garante cerca de 20% do eleitorado.

?Entre os atores políticos que apoiaram Bolsonaro em 2018 como instrumento para derrotar o PT, muitos não mais estarão com ele diante do fracasso do governo. Muitos achavam que Bolsonaro, apesar de sua agenda regressiva e da nostalgia pela ditadura militar, acabaria por fazer as reformas liberalizantes com que tanto sonham. Pensavam que Paulo Guedes entregaria os delírios que prometia. Essas lideranças políticas, junto com as altas finanças, desiludidas, hoje tentam viabilizar uma 3ª via. Mas viram que não têm nomes capazes de rivalizar com Lula e Bolsonaro. Agora tentam um processo de concentração. O PSDB já rifou Doria. Basta ver as últimas declarações de Tasso Jereissati, Aloysio Nunes e José Aníbal. Candidatos à novidade já desapareceram. Vide as retiradas de Mandetta, Luciano Huck, Rodrigo Pacheco, Eduardo Leite e Alessandro Vieira. A candidatura de Sérgio Moro, que poderia ocupar o posto de mobilizador da 3ª via, já aparece como natimorta. Um pouquinho de exposição deixou clara a fraude. O ex-juiz, além de fraco, parcial e desprovido de carisma, logo desnudou-se. Em seu desconhecimento do povo e dos problemas nacionais, e em sua incapacidade para a articulação política. Revelou-se uma cepa variante do bolsonarismo. Mero abrigo para o bolsonarismo arrependido. Além de ter sido contido pela resiliência de Ciro Gomes que permanece segurando parte do eleitorado que poderia debandar para Sérgio Moro.

?Para os que ainda sonham com a hipótese de uma terceira candidatura aglutinadora, a bola da vez é Simone Tebet. Teria boa presença de mídia, um discurso moderno, um partido capilarizado e manejaria o anseio por mais mulheres na política. Por isso, líderes de MDB, PSDB, Cidadania e União Brasil hoje estão investindo numa grande coligação em torno de Simone Tebet. O problema é que essas cúpulas partidárias dispõem de muita estrutura, mas não têm penetração na base da sociedade. Nem sempre se apercebem de que a relação do eleitor com os escolhidos passa por dois pressupostos. O candidato (a) tem que ser conhecido (a). Mas isso não basta. Tem também que conquistar a confiança do povo. Isso não é algo fácil de conseguir em apenas oito meses.

?A angústia dessas cúpulas é ver que Lula continua gozando da confiança de milhões de brasileiros. Que hoje conhecem os defeitos de Lula. Mas que também conhecem ou intuem os defeitos dos demais. Só que continuam a perceber que Lula tem genuína preocupação e empatia com o sofrimento que experimentam. Por isso, vão com Lula em outubro. Não porque imaginem que ele é um santo imaculado. Mas porque sabem que ele os entende em seu penar. E porque guardam lembranças de que no governo dele a sua condição de vida era menos ruim do que a de hoje.

*Advogado formado pela FDR da UFPE, PhD pela Universidade Oxford